Como conversar sobre violência de gênero com as adolescentes?

Esse é aquele tipo de texto que nenhuma mulher gostaria de ter que escrever. Mas como vivemos em um mundo onde a equidade ainda é um direito que parece distante de ser conquistado pelas mulheres, essa escrita se faz necessária.

Em março, nós recordamos o Dia da Mulher, uma data vista grosseiramente por parte da população como apenas mercadológica, para presentear mulheres com flores, chocolates e joias. 

Mas em 2026, toda mulher só pensa naquilo…. sobreviver. E não é à toa. 

Fonte: Canva Pro.

Em 2024 e 2025, o Brasil atingiu o recorde de feminicídios, com 1.518 e 1.458 vítimas em cada ano. Se você ainda não sabe, o crime de feminicídio é categorizado pelo assassinato de mulheres pelo simples fato de serem mulheres. 

No início de março, explodiu no noticiário uma notícia hedionda: uma adolescente de 17 anos foi vítima de estupro coletivo cometido por seu ex-namorado, da mesma idade, e por quatro homens de 18 e 19 anos. O crime aconteceu em Copacabana, no Rio de Janeiro.

No dia 21 de fevereiro, uma freira de 82 anos foi vitima de estupro e feminicídio dentro do convento, localizado em Ivaí, nos Campos Gerais do Paraná. 

Olhar para esses dois crimes e entender que são apenas dois recortes de milhares de casos todos os anos, apenas no Brasil, é desesperador. Se você é um homem lendo este texto, pode ter certeza que toda mulher que você conhece já sentiu ou sente constantemente medo de ser violentada ou morta. 

Se nós adultas já temos dificuldade de encarar esses casos (por medo) e falar sobre eles, já imaginou o que se passa na cabeça de uma adolescente?

Fonte: Canva Pro.

Em primeiro lugar, eu preciso te explicar que o cérebro de nós, adultas, já está com o córtex pré-frontal formado, o que nos possibilita tomar decisões mais conscientes e entender perigos em potencial. O cérebro da adolescente, ainda não.

Além disso, nós já vivemos o suficiente para compor no cérebro alguns gatilhos de memória que nos tornam alertas para alguns perigos em potencial. A adolescente, ainda não. 

Isso significa que temos que cuidar de nossas adolescentes. E o primeiro passo para isso pode ser um diálogo sincero e acolhedor com a adolescente mais próxima de você. 

Converse com ela sobre como ela se sente na escola, se já passou por alguma situação desconfortável com algum colega, professor, parente ou conhecido. Pergunte se algum homem já encostou ou obrigou ela a fazer algo que não queria. 

Apenas entre 2020 e 2024, o número de denúncias de abuso e exploração infantil cresceram 195%. Infelizmente, eu não inventei esse dado. Ele é real. 

Depois que o caso hediondo da adolescente em Copacabana veio a público, uma outra adolescente denunciou à Polícia Civil que foi vítima de estupro coletivo quando tinha 14 anos por, pelo menos, 2 integrantes do mesmo grupo.

Não existe idade segura para ser mulher no Brasil. 

O melhor que podemos fazer, umas pelas outras, é conscientizar as mais jovens a denunciar os abusadores e conversarem com mulheres que elas confiem; é nos colocar à disposição umas pelas outras para ajudar nos casos em que nossas amigas, irmãs, colegas de trabalho, conhecidas ou desconhecidas denunciarem para nós. 

Nunca duvide de uma denúncia. Se você for um homem, tenha a certeza de que NENHUMA mulher vai dizer que foi vítima de algo como violência sexual sem ter sofrido. Os números alarmantes que temos são apenas de crianças, adolescentes e mulheres sobreviventes, tomadas por uma grande coragem de denunciar seus agressores. Há àquelas que se calaram por medo de sofrerem represálias sociais ou do sistema de segurança não as protegerem. 

Em 2024, 13,1% das mulheres vítimas de feminicídio foram assassinadas mesmo tendo uma Medida Protetiva de Urgência (MPU) em vigor. 

O que fazer

Eu sou médica hebiatra e tive o privilégio de ter tido 8 anos de experiência em um serviço de Saúde mental. Isso me possibilitou prática clínica no acompanhamento pediátrico de crianças e adolescentes com questões de saúde mental. Posso dizer categoricamente que a violência deixa marcas. 

Se você notou que alguma adolescente próxima a você mudou drasticamente de comportamento, anda mais quieta, com roupas de frio mesmo no calor, sumiu do convívio social ou parou de falar com amigas, mostre-se disponível. Envie uma mensagem ou chegue ao lado dela e diga que se ela precisar de alguma coisa pode contar com você. O mesmo vale para as adultas. 

O recado final que gostaria de deixar é apenas: dialogue e coloque-se à disposição. 

Faça com ela aquilo que você gostaria que fizessem com você. Seja um sinal de luz em meio à escuridão que essa menina ou mulher possa estar vivendo. 

Dra. Gabriela Pavan – CRM 166412 / RQE: 42604 pediatria / RQE: 426041 medicina do Adolescente.